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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Rancho de Vale da Pinta fez 30 anos

O Rancho Folclórico de Vale da Pinta festejou 30 anos de vida. Uma história que, diz o seu actual presidente, Paulo Vila, “começou aquando da inauguração da Escola Primária, em que um grupo  de pessoas da freguesia criou uma marcha”. Gostaram da experiência e tiveram, então, a ideia de avançar com um rancho folclórico. Nos primeiros tempos, por ser novidade, houve um grande entusiasmo por parte da população que contribuiu com a verba necessária para comprar os trajes e instrumentos. Mas  não se ficou por aí, fazia questão de acompanhar o grupo, nas suas deslocações, “precisávamos de um autocarro para  levar o rancho e mais dois com pessoal atrás”. Rosa Dias foi uma das  fundadoras e ainda se lembra perfeitamente  que a primeira actuação foi em Vale da Pinta, “ali no Largo Francisco da Costa Marques Parente, onde está hoje o Centro de Dia”. O gosto pelo rancho era tal que “os seus elementos chegaram a pagar para ir actuar fora, quando não havia dinheiro para suportar as deslocações”.  Foi o caso de uma viagem ao Entroncamento, “em que, cada dançarino teve de pagar 500 escudos”. No princípio não foi feito um trabalho de pesquisa relativamente aos trajes e modas de outros tempos, o que acabou por acontecer há uns cinco ou seis anos atrás, recorrendo-se a fotografias e à memória da população mais antiga. De forma que, actualmente, os elementos do grupo exibem os trajes usados antigamente, ao longo da semana e ao domingo, por  trabalhadores e por pessoas abastadas.

(Reportagem completa para ler na edição 863 do jornal O POVO DO CARTAXO)



sábado, 29 de dezembro de 2012

Campeonato de Foot-Vaca


Foi em 2007 que alguns adeptos das tradições ribatejanas, em especial, ligadas aos touros e à festa brava resolveram criar um grupo a que deram o nome de Gentes do Cartaxo. Inicialmente, recorda o seu presidente, Délio Pereira, eram apenas 11. Ao longo destes anos, o grupo foi crescendo e, actualmente, “já temos à volta de 410/420 associados”.

O principal objectivo da associação é organizar as Festas da Cidade do Cartaxo. Uma tarefa que tem sido levada a cabo com sucesso, muito devido ao apoio que a Gentes do Cartaxo recebe de cidadãos individuais e de outras colectividades. Um apoio que, refere outro dos seus dirigentes, Jorge Rosa, “nos permite fazer as festas com um orçamento de 10 a 15 mil euros”, uma verba que fica bastante aquém da que, normalmente, as comissões de outras iniciativas do género precisam. Nesta altura, já estão a começar a preparar a edição de 2013, que se desenvolverá ao longo de cinco dias.

Tal como acontece noutros concelhos da região, as largadas de touros são dos momentos mais esperados e que mais entusiasmo despertam entre os muitos milhares de pessoas que se deslocam à cidade por essa altura. Mas, a pouco e pouco, a associação foi introduzindo outros divertimentos. Um dos mais populares e que faz com que a praça de touros encha por completo é a mesa da tortura, mas também o foot-vaca foi ganhando adeptos nos últimos dois anos. Inclusivamente, entre as raparigas que, este ano, formaram equipas e também participaram. Uma decisão que “nos deu muita alegria e que veio quebrar um pouco aquela tendência de associar o machismo à festa brava”. E o sucesso tem sido de tal dimensão que Jorge Rosa já pensa noutros voos: “por que não fazer-se um campeonato de foot-vaca”? Tendo em conta a curiosidade e interesse que a modalidade desperta, “quem sabe, se um dia destes, não aparece uma federação da modalidade.”

O fado é outra das vertentes da associação. Elias Santos diz que, actualmente, “somos 18 alunos, divididos por dois grupos”. A fama desta Escola de Fado já ultrapassou as fronteiras do concelho, o que faz com que receba adeptos da canção nacional de localidades como Santarém, Fazendas de Almeirim, Vila Franca e Torres Novas.

O próximo objectivo da Gentes do Cartaxo é criar uma secção direccionada para o apoio social. Délio Pereira lembra que, há algum tempo, “os nossos estatutos foram alterados, de forma a prever essa possibilidade ”e, tendo em conta a situação económica muito complicada que o país e as pessoas atravessam, a sua implantação é cada vez mais necessária, pelo que deverá avançar logo que possível

 (Reportagem completa na edição 861 do jornal O Povo do Cartaxo)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Os primeiros tempos da Humanitária de Pontével




Afonso Vital e José Inglês da Ponte são dois dos homens que estiveram na origem da Associação Humanitária da Freguesia de Pontével. Tudo começou com a organização das Festas de 1994, por um grupo de Quarentões, do qual faziam parte. Afonso Vital lembra que, na Segunda-feira, “já tínhamos a festa praticamente paga, na Terça-feira actuou o Quim Barreiros e foi a maior enchente de todos os tempos naquelas festas”. Graças a isso, no final, ao fazerem as contas, verificaram que sobrava muito dinheiro e começaram a pensar em como o haviam de aplicar. Um colega teve a ideia de adquirir uma ambulância para a freguesia, os outros concordaram e fez-se o negócio. A ideia original foi que a viatura ficasse ao serviço da Junta de Freguesia. Só que a autarquia “não tinha condições para trabalhar sozinha e pensou-se então em criar uma associação”. Mas quando avançaram com o processo, descobriram que as regras impunham a necessidade de terem mais do que uma ambulância.


Na altura, era Conde Rodrigues o presidente da Câmara e havia prometido, na campanha eleitoral, que, diz José Inglês da Ponte, “destacava para Pontével um núcleo dos Bombeiros”. Foi, então, a uma sessão da Assembleia cobrar essa promessa, a autarquia acabou por oferecer uma segunda ambulância e, assim, já foi possível avançar com a associação e colocá-la a funcionar. Mas, as coisas não foram fáceis nos primeiros tempos. Desde logo, para legalizar a Associação foi “uma burocracia enorme”. Para fazer transporte de doentes era necessário reunir um conjunto grande de condições. Também foi complicado legalizar as ambulância, perdendo-se cerca de dois anos até que todas as situações estivessem totalmente resolvidas. Outra questão que havia que resolver era a da sede. Afonso Vital recorda que ela foi instalada “numa adega velha, nós é que fizemos as obras, de forma a conseguirmos as condições mínimas para poder funcionar”. Uns cinco anos mais tarde, “aumentámos as instalações mais um bocadinho para criar uma pequena camarata e um escritório e estivemos nessas instalações precárias ao longo de 13 anos”. Os dois fizeram parte do núcleo de fundadores e dos primeiros órgãos sociais, ficando José Inglês da Ponte como presidente da Direcção e Afonso Vital como primeiro tesoureiro. A equipa foi, então, “de porta em porta, angariar sócios e fomos muito bem recebidos”. Fizeram questão de deixar bem claro que aquela seria uma instituição de toda a freguesia de Pontével, que “estava um bocado dispersa, em termos de comunicação e relacionamento, e nós tentámos fazer uma associação que abarcasse toda a freguesia”. Isso era visível até na lista dos primeiros corpos sociais que incluía moradores da sede de freguesia e de todos os restantes três núcleos populacionais de maior dimensão.
Mas, naturalmente, que, mesmo nessa altura, ninguém ‘nadava’ em dinheiro e lá voltou o grupo a ir a uma Assembleia Municipal para pedir apoio à Câmara. Ele chegou sob a forma do fornecimento de combustível o, que aliviou os apertos financeiros e possibilitou a continuação da sua actividade.

Uma actividade que já salvou muitas vidas. Algumas, logo no ano da fundação, quando resolveram enviar uma ambulância, para estar de prevenção, num rallye de angariação de fundos, nos Casais Lagartos. José Inglês da Ponte diz que se tratava de uma iniciativa praticamente clandestina, ninguém pediu a colaboração da associação, mas os seus dirigentes tiveram “o bom-senso” de enviar a ambulância. E em boa hora o fizeram, pois “deu-se um acidente muito grave e salvámos muita gente”. 

Os dois confessam estar muito orgulhosos da evolução da instituição que ajudaram a fundar e pedem para que a população continue a apoiá-la. Uma evolução que Afonso Vital tem acompanhado por dentro, ao longo destes 15 anos, uma vez que sempre esteve e se mantém nos órgãos sociais. No entanto, como em tudo na vida, é preciso que haja um “refrescamento” e apela a que outras pessoas se envolvam nos órgãos dirigentes, com “ideias novas e também para dar descanso aos que já cá andam há muitos anos”.
(Reportagem completa na edição 860 do jornal O Povo do Cartaxo)

domingo, 18 de novembro de 2012

Recriação de uma matança de porco à moda antiga



O Rancho Folclórico da Freguesia da Lapa mostrou como se procedia, antigamente, à matança de porco.
A iniciativa teve como objectivo recordar uma tradição que, segundo o seu presidente, Luís Paulo, tem vindo a perder-se. Até há alguns algum tempo atrás, uma vez por ano, todas as famílias da zona “matavam o seu porquinho”. Uma parte da carne era convertida em presunto, outra servia para fazer enchidos e a restante ia para a salgadeira, pois frigoríficos eram luxos que ninguém tinha e só envolta em sal é que se conseguia conservar a carne em boas condições. A família ia-se alimentando dela até o próximo porco estar pronto para a matança e o processo se repetir. Tudo, no animal, era aproveitado: carne magra, carne gorda, miudezas, tripas, tudo. Agora, lamenta Luís Paulo, “a malta está mais fidalga, só quer os lombos, tem medo do colestrol”. O presidente da freguesia da Lapa, Rogério Santos, ainda se lembra como as coisas se processavam. No primeiro dia, matava-se o porco, que ficava a enxugar e, no final, havia uma leva refeição. No dia seguinte, família e amigos voltavam e desmanchavam, então, o animal e, naturalmente, comia-se mais qualquer coisa. Uma semana depois, acrescenta Luís Paulo, “fazia-se os enchidos e a refeição era composta, exactamente, de uma parte dos enchidos frescos, para se provar e do bucho, era outro convívio”.


Enquanto vão falando, já o porco de pouco mais de 60 quilos foi sacrificado. Depois de morto, o seu couro é queimado com tojo a arder e, de imediato, um conjunto de voluntários raspa, com facas e telhas, o dorso do animal, até que ele fique branco. É então colocado em cima de uma mesa de madeira e devidamente preparado para a fase seguinte. Para levá-la a cabo são precisos vários homens que têm de levantar o porco e pendurá-lo na vertical. É aberto com uma faca, tiram-lhe o fígado, rins e demais miudezas e também as tripas que são colocadas num alguidar de plástico e entregues às mulheres a quem cabe a pouco agradável tarefa de as lavar. Eram, posteriormente, aproveitadas para os enchidos. Entretanto, a noite foi-se aproximando, mas há apenas que cortar a cabeça do bicho e, para já, o trabalho fica praticamente concluído. Segue-se a parte mais interessante: os ‘cozinheiros’ cortam o fígado, os rins e alguma carne em pequenos pedaços, fazem os temperos com cebola picada e vinagre e colocam a carne sobre o grelhador de carvão que, entretanto, alguém acendeu. Olhando para o animal, Luís Paulo e Rogério Santos dizem que antigamente os porcos tinham outra dimensão, pois levavam o ano todo a engordar, enquanto que agora, “em poucos meses, seguem para a matança”. Enfim, outros tempos. Mas chega de conversa, vamos mas é ver se o petisco ficou saboroso.

(Reportagem, O Povo do Cartaxo, 16 Novembro 2012)

A mais jovem freguesia


Numa altura em que só se fala de extinção e fusão de freguesias, fomos em busca das razões que levaram à constituição da freguesia de Vale da Pedra, a mais jovem do concelho do Cartaxo. Joaquim Edgar (presidente da Freguesia) e José de Amorim Sereno são dois dos elementos que, em determinada altura, resolveram avançar com o processo que haveria de levar a que Vale da Pedra se tornasse ‘independente’ da freguesia de Pontével. Envolveram, então, a população numa luta que acabou coroada de sucesso, com a constituição da freguesia de Vale da Pedra, em 23 de Maio de 1988.
José de Amorim Sereno lembra que a gota de água foi a recusa do presidente da Junta de Pontével da altura de, nas eleições, colocar uma mesa de voto em Vale da Pedra, conforme era solicitado pela população local. Os meios de transporte não eram o que são hoje, pelo que, para conseguir votar, a maioria dos habitantes de Vale da Pedra tinha de se deslocar à sede da freguesial, “a pé, de carroça ou de bicicleta”. Não dava muito jeito, mas a resposta que obtiveram foi que “nem pensássemos nisso”. Uma resposta que não agradou e, desde logo, um grupo de pessoas decidiu que “se não vem a bem, vem de outra maneira”. Juntaram-se “aí uns 12 ou 13” e começaram a sensibilizar a população para a necessidade de Vale da Pedra se transformar em freguesia. Para se avançar com o processo burocrático, criou-se uma comissão e recolheram-se assinaturas de, praticamente, todos os moradores da zona.
A tarefa, a esse nível, não foi difícil, diz Joaquim Edgar, uma vez que a convicção geral era que “Pontével ralava-se pouco com Vale da Pedra, pouco fazia por nós, os caminhos eram de terra batida e estavam cobertos de silvas, não tínhamos cá nada”. Para quase tudo, era necessário ir a Pontével ou ao Cartaxo, “só havia aqui uns cafés, tabernas e mercearias, mais nada, isto era uma terreola”.
Foi a partir de 1983/4 que começou a tomar forma o processo de ‘divórcio’ que não foi pacífico. Em determinada altura, um grupo do qual José de Amorim fazia parte foi à Junta de Pontével “buscar um papel que era preciso para entregar na Assembleia da República e o presidente da Junta não o entregou”. Um impasse que só foi resolvido graças à intervenção dos serviços da Câmara, na altura liderada por Renato Campos.
Fazendo o balanço destes 24 anos como freguesia, ambos garantem que valeu bem a pena o esforço. “Então não valeu a pena, se não fosse isso, não tínhamos cá nada”, diz, convicto, José de Amorim. O seu companheiro de luta, Joaquim Edgar, lembra que o número de habitantes cresceu de cerca de 700 para quase 2000 e elenca as melhorias verificadas: “temos 99% das pessoas servidas com água canalizada, esgotos estão aí a 65%, exceptuando um beco, temos todas as estradas alcatroadas, temos farmácia, posto médico, temos uma creche nova, um Centro Social, uma igreja, uma escola melhorada e ampliada”.
De forma que, se de Lisboa vier a indicação de que esta será uma das freguesias a ter que se juntar com outra, está convencido que o povo vai novamente levantar-se em peso, pois “temos todas as condições para sobreviver sem ser preciso isso”.



(Reportagem, O Povo do Cartaxo e Rádio Cartaxo 26 Outubro 2012)

A arte de construir chocalhos


A crise está a fazer com que algumas actividades e profissões praticamente desaparecidas estejam a ser recuperadas. Na freguesia da Ereira (concelho do Cartaxo), deparámo-nos com um desses casos. Artur Silva e Luciano Jesus recuperaram a arte de produzir chocalhos. Uma arte que tem muito que se lhe diga.
Na base de todo o processo está um simples rectângulo de metal. Luciano pega nele e, à força de muitas marteladas, acaba por moldar-lhe a forma pretendida. Depois, embrulha-o em papel e envolve-o numa massa feita de barro e palha, seguindo-se o necessário processo de secagem. O chocalheiro repete o processo dezenas de vezes ao dia. Ao fim de várias semanas estão, finalmente, criadas condições para se avançar para a fase da fundição, para o que é necessário dar uso ao forno. O seu aquecimento “leva duas horas”, o que implica um gasto substancial de gás. Daí que, por uma questão de rentabilização, apenas seja ligado uma vez por mês, quando já há muitas centenas de chocalhos de diversos tamanhos prontas para serem sujeitas a temperaturas na ordem dos 1200 graus centígrados.
Esse é o dia de trabalho mais longo de cada mês para si, para Artur Silva e os três outros amigos que os ajudam na tarefa. A jornada começa logo pelas quatro horas da madrugada e dura até às seis, sete horas da tarde do dia seguinte. Depois de fundidos, os chocalhos são retirados do forno por Luciano, envergando um fato, máscara e luvas anti-fogo, que os seus colegas, na brincadeira, dizem ser de astronauta.
Mas ainda são várias as fases pelas quais os chocalhos terão de passar antes de estarem prontos para seguirem o seu caminho e cumprirem a missão para a qual são construídos. Mal são retirados do forno, têm de ser continuamente “rebolados no chão” durante alguns minutos “para não coalhar no mesmo sítio”, após o que são mergulhados na água. Parte-se, então, a massa que envolve os chocalhos, os quais são, posteriormente, polidos. Com mais umas leves marteladas, Luciano dá-lhes a afinação de som, coloca-lhes o badalo e o processo fica, finalmente, concluído.
   Produzir chocalhos era uma ideia que Artur Silva tinha já há algum tempo. Aprendeu com o pai a arte da correaria e pretendia acrescentar os chocalhos ao lote de produtos que tinha disponíveis para os seus clientes. Mas o problema é que não possuía conhecimentos técnicos para construí-los. Até que conheceu Luciano Jesus, cuja família estava ligada ao ramo: “os meus avós foram chocalheiros, o meu pai não seguiu, eu aprendi com um amigo da família e já levo uns 14 anos de profissão”. Recebeu o convite de Artur Silva e largou o seu Alentejo para vir para a Ereira produzir chocalhos. Começaram há cerca de quatro meses e, como a concorrência não aperta, pois já há pouca gente a produzir este tipo de produtos, clientela não tem faltado. Vendem para todo o país e até para Espanha, dando completo escoamento à produção. Artur Silva diz que até nem têm ido muito à procura de novos clientes, uma vez que “a produção ainda é pequenina, mas estamos a tentar mecanizar um pouco mais o processo” para conseguirem passar para um nível de produção mais avançado.


(Reportagem publicada no jornal O Povo do Cartaxo de 12 Outubro 2012)